Deus das Pequenas Coisas

Não faz mal nenhum ser muito exigente connosco. Desde que não coloquemos a fasquia tão alto, que tenhamos medo, só de olhar para ela. E fiquemos parados. E é assim que começa este blog…

terça-feira, setembro 19, 2006

Ela
Tem os cabelos castanhos, claros, meio encaracolados. Cabelos de adolescente, que ainda não cresceram o suficiente para enfeitarem uma cabeça adulta. Tem uns olhos claros, meio indefinidos e pardos. E sardas, nas duas bochechas. É baixinha e magricela. Pinta as bolas dos o’s, dos a’s e as barrigas dos d’s, em todos os textos dos livros. Perde-se a olhar pela janela da sala, e até parece que está a sonhar, de olhos bem abertos. Quando lhe perguntam o que é que gostava mais de ter, responde liberdade. Liberdade para poder sair até mais tarde com as amigas, ficar mais uma hora, ou duas. O olhar envergonhado passeia pelo chão. Claro que quer sair, e divertir-se. Só tem quatorze anos, e é isso mesmo que se faz aos quatorze anos. Quer-se ser diferente, sem no entanto deixar de ser igual a todos os outros. Aos quatorze anos estamos a começar a ser, a mexer as coisas cá dentro. A aprender a dizer muitas vezes que não, e outras tantas que sim. A aprender a deixar de ter medo do escuro e a passar a ter muito medo do escuro. Aos quatorze anos tem-se tudo, porque ainda se acredita que é possível ter tudo. Menos um filho. E isso ela já tem. Um filho que nasceu ali mesmo, dentro de casa, feito dentro de casa, por quem devia dizer que está tudo bem, e não tornar tudo tão errado. E ela, em vez de estar a crescer, está a fazer o que quer que seja que se faz, quando se tem quatorze anos e um filho de um ano nos braços.
É claro que eu não a conheço. E ainda bem, porque não ia saber lidar com ela.